Tal como faço inúmeras vezes, ontem à tarde alapei-me na esplanada da Pastelaria Suíça, no Rossio. Tenho por hábito ir para lá beber um café e ver as gajas. Não necessariamente por esta ordem, eu até nem gosto de café, mas para evitar que chamem a policia de novo para me tirar de lá, apanhei esta mania de pedir um café. Gajas é grupo e o café já estava frio. Os empregados a olharem-me de lado, quando de repente se fez luz. Eram 18h30 e acenderam os candeeiros . Comecei a folhear o Correio da Manhã, quando me deparei com um anuncio bastante suis géneris.
"Madame Mamaki : Se tem problemas de dinheiro, azar ao jogo e infortúnio no amor, venha ter comigo! Não resolvo os seus problemas, mas também não os pioro."
É mesmo isto que eu preciso , pensei eu ao mesmo tempo que me dirigia para o consultório da cartomante ou lá o que ela era. Bati à porta. Do lado de dentro ouvi uma voz tipo da Júlia Pinheiro.
- Quem é ? , disse ela . Oh diabo, começamos mal, pensei para mim mesmo. Que raio de bruxa é que não sabe quem lhe bate à porta ? Bom, mesmo assim resolvi entrar e sentei-me enquanto ela foi pôr a placa na boca. Era um quarto escuro, com uma mesinha no centro. Em cima da mesinha estava - e atenção que isto pode ser um choque para muitos - uma bola de cristal.
Então jovem , o que queres de mim ? disse ela num tom macabro. Para começar, queria que tapasse a mama direita porque tá com o bico de fora e ainda se constipa, e depois queria que me dissesse algo sobre a minha vida.
Bom, meu filho , vejo que eras bebé quando nasceste e que desde então tens crescido e ainda não morreste. Vejo também que resolveste vir bater à minha porta à procura de algo. Eh pá, posso não ser um gajo muito inteligente nem muito batido nisto das bruxarias e não sei quê, mas algo me dizia que a especialidade da Madame Mamaki não eram as adivinhas.
Oh Madame Mamaki , qual é a sua especialidade ? perguntei eu meio que a tremer com medo da resposta. Nisto, não é que a velha safada me pisca o olho, aponta para um quarto lá ao fundo ao mesmo tempo que usa os dedos dos pés para jogar aos berlindes com os meus tomates. Como fui ensinado a respeitar os mais velhos, lá fui eu de mão dada com a senhora até ao dito quarto. Ela despe-se e volta a pôr a placa num copinho de água junto à mesa de cabeceira. Foi então que eu não resisti e perguntei Desculpe mas a senhora não é cartomante de verdade pois não ? Ela vira-se para mim e diz Vês meu filho, até tu levas jeitinho para a coisa . .







