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sábado, 13 de março de 2010

O Botão da Camisa



Conheços gajos com vidas muito interessantes; não é o meu caso. Conheço gajos com histórias ( quero lá saber do acordo ortográfico !) fantásticas; não é mesmo o meu caso. Conheço ainda gajos que já fizeram trinta por uma linha e que são considerados heróis em quatro bairros, três dioceses, duas províncias e numa capital de distrito; não, não é o meu caso. A vida para mim é tipo os autocarros , quando tou a chegar à paragem para o apanhar, ele acabou de sair. Passo completamente ao lado da vida, sou um ninguém - sou tão miserável que nem tenho direito a ser um zé ninguém - um homem invísivel dos nossos dias. O meu melhor amigo é o filho do padeiro, o carlitos, com quem tenho grandes conversas, por vezes estamos horas na palheta os dois e ele gosta tanto que nem mexe o dedo mindinho sequer ! Os invejosos do bairro dizem que é por ele ser tetraplégico, eu gosto de pensar que ele é uma pessoa com bastante tempo livre, e desde aquela vez em que ele tentou enforcar-se com a própria língua, que as coisas melhoraram a olhos vistos. Em casa também passo ao lado, nem os 9 meses em vivi entre o estomâgo e a bexiga tiveram qualquer impacto sobre a minha mãe. Outro dia cheguei à porta de casa e vi que me tinha esquecido da chave para entrar . Toquei à porta, e vi um olho a aproximar-se de óculo :
- Não quero comprar nada ! Vá-se embora
- Mãe sou eu !!
- Eu quem ??
- O Rui, o teu único filho . . .
Pior ainda é quando ela tá na sala a ver televisão e eu entro :
- Aiiii eu faço tudo o que quiser mas não me faça mal !!
- O quê ?? Sou eu !!
- Leve o dinheiro, os fios , tudo ! Mas não me faça mal por favor senhor ladrão !! A minha caderneta da Caixa tá na cozinha entre o sal grosso e a noz moscada . . .
É desagradável. Por várias vezes já pensei que ela anda com a minha fotografia na carteira, não por gostar de mim e não sei quê, mas para me reconhecer se me vir na rua.
Faz hoje 3 dias que passei por ela na rua. Cheguei-me ao pé dela e disse-lhe " então, queres vir almoçar comigo ?" , bem, levei um chapadão nas ventas que até parecia mentira. - "Ordinarão, respeitinho que tenho idade para ser sua mãe" - respondeu-me ela. C'um caraças pa, é mau demais para ser verdade. Quando um gajo chega ao ponto de nem os nossos pais nos reconhecerem, só resta uma solução : um gajo matar-se . E assim foi. Agarrei e fui à loja do chinês por baixo do meu prédio . O cabrão do chinês olha p'ra mim com um ar sempre desconfiado, o que até nem é estranho para a minha pessoa, apenas fico na dúvida se ele também não me reconhece - só devo ter entrado algumas 200 vezes naquela loja - ou se será que tenho algum macaco pendurado no nariz.  Passo por ele a olhar p'ro chão, sempre com um olho no burro outro no cigano, não vá o sacana armar-se em Bruce Lee e lembrar-se de me dar uma tareia de caixão à cova, o que apesar de resolver 100% dos meus problemas, ia tirar o gozo de ser eu próprio a matar-me. Dei meia dúzia de voltas e encontrei o que queria entre as fichas triplas e as torneiras de casa de banho; uma corda. Voltei para casa. Peguei num papel e numa caneta e começei a escrever um bilhete. O bilhete era para o gajo da funerária a pedir para não me vestir aquelas calças de ganga pretas que estão no armário, porque me apertam à brava nos tomates, e já que vou passar o resto da vida com elas, pelo menos que me ponha umas que fique mais á vontade. Liguei o computador e fui ao youtube ver como se faziam nós de enforcar. Faltava escolher o local . Como achei que aquilo ia dar merda, resolvi pôr a corda na ventoinha por cima da retrete. Pus a corda no garganete e dei o nó. Foi então que começei a sentir uma comichão enorme e a ficar tudo vermelho à volta do pescoço; era alérgico ao material da corda. É o que dá um gajo comprar as coisas no chinês. Até a morte me ignora! Foi mais ou menos nessa altura que vi uma tomada na parede ; meti dois dedos à boca, enchi-os de gosma e enfiei-os na tomada , e  . . . . .  nada !! Dass , só podem tar a  brincar comigo. Serei eu tão estúpido que nem me suícidar consigo ?! Tava a pensar nisto quando olhei para o chão e vi uma carta da EDP com um aviso de corte. Bonito, era só o que me faltava! Parece que adivinham, cortam a luz quando um gajo mais precisa dela. Abri a porta e fui para a rua. Podia abrir uma gaveta, pegar numa faca e matar-me, mas depois iam surgir comentários . .
- Já soubeste ? o Rui matou-se com uma facada
- Devia tar a cortar uma cebolinha para o jantar e cortou-se o mariconço !
Mal por mal prefiro que comentem algo do género:
- Já soubeste ? o Rui foi esmigalhado por um camião
- E ouvi dizer que até fez uma mossa no para-choques !
Tá decidido ! Avançei para a estrada, cheguei ao semáforo mas tive de parar, tava vermelho para os peões. Posso ser suícida, mas não sou maluco, só atravesso quando está verde. Abriu o verde e lá vou eu que nem um burro com palas nos olhos só a olhar em frente. Ao fim de 3 ou 4 corridas ... PUMBAAA !! Levei uma fruta tão grande que andei alguns 5 metros de ladecos. Abri os olhos. Oh que lindo é o Paraíso ! O céu azul, as nuvens parecem feitas de algodão, as pessoas à minha volta são iguais às da Terra, até tem o . . . INEM ?! Pera aí, há aqui qualquer coisa mal. Onde está o S.Pedro ? e Jesus, onde está ? Bom, o único Pedro que ali tava era o do talho que a mulher andava a ser comida pelo carteiro, e Jesus, esse, tava a ir para o treino do Benfica. Em vez de um camião, eu tinha sido abalroado pela bicicleta  cor-de-rosa (daquelas com um cestinho para as bonecas à frente ) da Joaninha, a filha de 6 anos da D. Kiki, a tia lá da rua. Voltei para casa, toquei à campainha e depois de 5 minutos a explicar à minha mãe que não era nenhuma testemunha de jeová, que era o filho dela, subi para os meus aposentos e resolvi ir dormir, amanhã melhores mortes virão.  Como tenho problemas em adormecer - aliás, tenho problemas em adormecer, tenho problemas em acordar e tenho problemas naquele espaço de tempo que vai desde o acordar ao adormecer - tenho sempre um comprimido para dormir na mesa de cabeçeira. Apaguei a luz, meti o comprimido à boca e fui dormir. Apesar dos acontecimentos do dia, dormi que nem um urso quando hiberna, devo ter acordado uns quatro dias depois. Olhei para a mesa de cabeçeira para ver em que ano estava ,e qual não foi o meu espanto quando vi que o comprimido para dormir ainda lá estava !?! Oh diabos , queres ver que me enganei e engoli o botão da camisa por engano . . . . .
Moral da história : Mais vale um botão na mão do que uma corda ao pescoço !