Hoje fui ao barbeiro. Só por si, assim à primeira e à segunda vista e como quem não quer a coisa, não parece nada de especial. Não seria nada de especial para uma pessoa normal, mas para um perfeito palerma como eu, é óbvio que deu buraco. Ai se deu. Só corto o cabelo p'rai de 3 em 3 meses, ou mais. Basicamente, só quando estou numa sala escura com as luzes apagadas e nem o preto consigo ver, aí sim, é altura de ir visitar o barbeiro. Barbeiro esse que me corta a trunfa há mais de duas décadas e me conhece de pequenino. Agora façam as contas. Se eu lá for de 3 em 3 meses, significa que vou lá 4 vezes por ano, vezes 20 e tal anos dá mais de 100 visitas. Apesar disso, não é que o cabrão não sabe o meu nome ?! Pior ! Não só não sabe o meu nome, como me chama de Tiago. Tiago ?!?! Ah , peço desculpa, Tiago é parecidíssimo com Rui. É tipo Cornetto e Calippo.
"Dê-me um Calippo de morango se faz favor" , " O quê? Queres um Cornetto de Chocolate?". Enfim, não vamos por aí.
Como eu estava a dizer, entrei e ouvi logo um " então Tiago, vens cortar o cabelo". Começas bem, pensei logo eu para mim. Não, quero 1 kg de carne de vaca picada. 2 vezes se faz favor. Não disse isto porque sou um gajo educado e refinado, mas vontade não me faltou. No seguimento de coisas boas, a máquina encravou, e com ela foi metade do meu escalpe agarrado. Saltou uma posta que mais parecia um lombo de bacalhau que outra coisa. Foi nessa altura que eu vejo o Sr.Ernesto entrar. Caguei-me todo, foda-se.
- Oh Tiago, a máquina encravou, e assim que acabar de dar uns pontos na tua cabeça, aqui o Sr. Ernesto corta-te o cabelo, tá bem ?
Para quem não sabe, o Sr. Ernesto é o jardineiro lá do bairro. Anda sempre com uma moto-serra numa mão e um cortador de relva na outra. Corre o boato que cortou a cabeça da mãe porque ela lhe deu uma prato de Cerelac quente demais. Bom, lá os convenci a mandar o Sr. Ernesto embora e lá acabaram por me cortar o cabelo. Uma coisa que nunca percebi é o calor que faz dentro daquela barbearia. Acho que dormir dentro de uma lareira acesa é mais fresquinho. Como começo logo a suar, quero é que eles se despachem. Assim que sinto a mão na minha testa suada penso logo 'pronto, o cabrão do velho tá a sentir a nhanha peganhosa e vai me cortar o cabelo aos bicos'. 'Tá bom ou vê lá se queres mais curto' , eu abano logo a dizer que sim, pago e vou embora. Assim que chego ao carro vejo logo a merda que me fizeram. Consigo chegar a casa mais depressa do que se estivesse à rasca para cagar. Vou à casa de banho e olho-me no espelho. Sofro daquilo a que chamo Efeito Whisky. É o mesmo que acontece quando vamos à discoteca e, podres de bêbados, engatamos uma gaja boa como o milho. No dia a seguir quando acordamos sóbrios, damos conta que temos um entrouxo manhoso com ar de pindérica atrombolhada ao nosso lado. É mais ou menos o efeito dos espelhos nos ginásios ; parecemos sempre magros e musculosos. Quando chegamos a casa e nos vamos olhar ao espelho, damos conta que do ginásio até casa ganhamos uma pança maior que a do Nicolau Breyner. Resultado : dou comigo com a cabeça no lavabo e com a tesoura na mão. Passados 5 minutos e outras tantas tesouradas, só me vem uma coisa à cabeça ; abençoado o gajo que inventou o boné . . . .

