Há algumas semanas, estava eu a fazer a única coisa que até à data sei fazer bem - dormir - quando de repente, me tocam à porta de casa. Fiquei na mesma, pensei que era um sonho. Repete-se a situação e oiço novamente o barulho da campainha MUUUUUUUU - alterei o som original para o som de uma vaca , chamo-lhe Tuning portal - e aí estranhei, pois nos meus sonhos nunca ninguém me tocou à porta, por norma tocam-me ao bicho. Levantei-me meio assarapantado e estremecido. Quando cheguei à porta, voltei para trás e fui ao W.C . Porquê ? 3 palavras : Tesão do Mijo. Finalmente abri a porta e vi um individuo de cabelo comprido, barba por fazer, tatuagens no braço. Pensei logo que era um fiscal das finanças, ou uma testemunha de Jeová. "Bom dia" , diz-me ele. "Depende, o que é que quer?" , disse-lhe eu num tom masculino, numa mistura de timbre do Olavo Bilac e do Paulo Gonzo. "Desculpe, mas o senhor é meu pai". Achei a coisa estranha. Eu nem sou gajo de ver muitas telenovelas, mas sei que existe uma introdução tipo desculpe, a minha mãe morreu e deixou uma carta com o seu nome e morada e eu vim ter consigo, seguido do sempre comovente paizinhoooooooooooooo. Pronto, aquelas tretas do costume. Não me desmanchei e respondi logo " eh pá, vocês das finanças estão sempre a inventar coisas novas para tramar um gajo, porra!". Pensei que o tinha arrumado, quando ele se vira e diz "não , sou mesmo seu filho". Pronto, aí a coisa mudou de figura e comecei a acreditar, até porque fui ensinado que as crianças não mentem. "Então prova que és meu filho, que eu tou cheio de sono e quero ir dormir", disse-lhe eu. "Ok, olhe-me bem nos olhos , tá a ver esta parte branca à volta da irís ? você também tem essa parte branca!! Paizinhoooooooo !!!". Contra factos não há argumentos. Obviamente e como é de calcular, fiquei extremamente aborrecido com a situação. Eu que estava a contar dormir até as 3 da tarde, fui acordado às 7 da manhã por um pseudo filho. Não se faz, pelo menos antes do meio dia não se reclama paternidade a ninguém, é falta de educação. Perguntei-lhe a idade, ele respondeu 60 anos. Achei estranho o meu filho ser 30 anos mais velho do que eu, mas enfim, há tanta coisa estranha que não passei grande importância. Fomos tomar o pequeno-almoço. Pedi uma torrada e um garoto p'ro miúdo. "Uma mini e um prato de tremoços oh chefe", disse ele. Achei mal. Ao fim ao cabo, fui ensinado que as crianças precisam de beber leite para crescerem fortes e saudáveis. Fomos para casa para nos conhecermos pior - sim, porque melhor não era de certeza. Pensei em ligar a PlayStation, todos os miúdos gostam de jogar. Ele disse logo que não, que a onda dele era jogar à malha e às cartas com os amigos no jardim. Chegou a hora de almoço. Pensei em fazer uns douradinhos do Capitão Iglo, os miúdos costumam gostar dessas coisas. Depois de tomar mais de 25 comprimidos, ele diz-me " Não posso comer carnes vermelhas por causa do ácido úrico nem molhos por causa do colesterol. Doces nem pensar senão disparam-me logo os diabetes e coisas salgadas ou picantes tão fora de questão, o meu médico já me disse que tive muita sorte em ter escapado a 3 enfartes e 4 AVC's". "E um copinho de água bebes?" , disse-lhe eu. "Só se for do Luso e destemperada, água muito fresca parece uma faca a espetar-se nos 2 dentes que ainda me sobram na boca". Chegou a altura em que pensei que , já que tinha que assumir este velho baboso como um recém nascido, mais valia saber sei lá, tipo . . . . quem era a mãe dele ?! "A minha mãezinha é a Cesária Évora, a cantora" . Pronto, tá explicado o porquê de ter uma cara que mais parece ter sido atropelado por um comboio 4 vezes seguidas, puxou à mãe. Mas, como podia ele ser meu filho se nem sequer 1 CD eu comprei da mulher, quanto mais fazer-lhe cocegas na pintassilga. "Ah , hummm ... se calhar cruzaram-se no Colombo e tu espirraste-lhe para cima e ela engravidou" . Cheirou-me a esturro e não era da panela que estava ao lume. Comecei a pensar que ele me queria enganar. "Olha lá , para que andar é que tu querias tocar ?" , perguntei eu, "4º B, porquê paizinho?" , "Oh meu grandessíssimo camelo, porque eu moro no 4º D, minha granda besta quadrada". "Ah desculpe lá então, foi engano, boa tarde". . .
P.S: Continuo a achar que era um fiscal das finanças. Ou uma testemunha de Jeová.

